Regina
Blog Somos Maré

"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Somos incomparavelmente únicos

por Kid´s Home - 24 outubro, 2018

Completo 60 anos agora em dezembro.

Fiquei pensando o que seria entrar numa sala de aula, onde todas as pessoas, umas vinte, teriam 60 anos. Quantas comparações poderiam surgir desse encontro, não é mesmo? Quem é o mais ativo e o mais lento? Quem é o mais magro e o mais gordo? Quem parece mais jovem e menos jovem? O mais alegre, mais barulhento, mais falante, mais pacificador, mais culto, … mais, mais, mais ou menos, menos, menos. Que coisa chata! Eu não quero entrar nessa sala não! Vou desistir desse curso já já, rsrsrs.

Será que é assim também que se sentem as crianças e jovens em suas salas de aula seriadas por idade? Certamente os professores e pais têm expectativas de que seus filhos sejam os melhores da classe. O que é ser o melhor da classe? O que é ser o pior da classe? Que comparativos são esses? Qual a importância de aprender primeiro determinado conteúdo? O que de fato precisa ser aprendido nesse mundo tão mutável? A frustração de não ser o melhor ou ser o pior de um grupo assim, será que é trabalhada pelos pais e educadores? Como lidam com os sentimentos essas escolas conteudistas? 

Não há, além da escola, outro ambiente que nos divida por idades, não é mesmo? Para que essa divisão? Para quem isso é bom? Sabemos que facilita o trabalho dos professores, que fazem um planejamento igual para todos, como se todos fossem iguais pelo simples fato de terem a mesma idade. Sabemos que facilita a visualização do processo de desenvolvimento, pois deseja-se que todos alcancem simultaneamente os mesmos objetivos, como se todos fossem iguais, pensassem e sentissem, agissem e reagissem da mesma forma, por terem a mesma idade. É mais fácil para a estruturação de materiais didáticos, pois estes definem conteúdos como se todas as crianças se interessassem pelos mesmos assuntos a um mesmo tempo. Quantos enganos facilitadores para a escola e famílias, mas garantidamente dificultadores para as crianças aprendizes. 

Receber as crianças todas juntas, independente de idades, num mesmo ambiente educativo exige bastante dos professores! Eles precisam conhecer o desenvolvimento humano de maneira ampla e não somente específica de uma idade. Precisam também montar planejamentos avaliando cada sujeito dentro do grupo. Difícil, mas muito rico para as crianças, que assim têm suas características respeitadas e diluídas no contexto do coletivo. Cada um é único e assim deve ser tratado, com direitos iguais para todos!

Esse ambiente multisseriado também exige das famílias, pois têm que reconstruir seu entendimento do processo de ensino e aprendizagem. Sabemos que sapato velho é mais confortável, por isso aceitar a inovação é uma ousadia necessária e importante para que o mundo mude e cada sujeito calce os sapatos que precisa para caminhar sua trilha rumo a uma educação planetária e transformadora, uma educação que contribua para a revitalização da Terra, dos valores sociais e das novas exigências profissionais que surgem a cada ano. 

Quando as pessoas compreendem a escola e participam ativamente dos processos, ajudam a construir a Comunidade Educativa que todos almejamos! Podemos fazer essa afirmação porque sabemos que todos desejamos dignidade, justiça, respeito, bem estar, amor e paz. 

Precisamos trazer a vida real para dentro da escola e, a vida que desejamos não nos divide, mas sim nos torna fraternos e colaborativos. Quando conseguirmos um novo olhar e atitudes frente à competitividade do século passado, à segmentação de saberes, ao consumo desenfreado, ao extermínio das florestas, ao êxodo rural e consequentes favelas, ao desrespeito aos imigrantes… então seremos uma nação linda, digna de nossas crianças. 

Regina Pundek

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