Regina
Blog Somos Maré

"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Retorno

por Kid´s Home - 1 novembro, 2019

Esta é uma história sobre minha indignação: por que não consigo ensinar adultos? Por onde passa minha dificuldade?

“Sabe quando a mãe da gente diz para levarmos sombrinha num dia ensolarado e a gente desobedece, toma uma chuva de tempestade, volta para casa toda molhada e ainda pega uma pneumonia? Pois é. Foi isso que me aconteceu. Tenho que te pedir perdão”.

Foi assim que a conversa começou naquela tarde, em que os abraços e as lágrimas declaravam tanta dor, tanto arrependimento.  O telefonema que recebi meia hora antes, pedindo urgência para conversar comigo, me deixara em suspense, pois trata-se de uma família querida, com a qual convivêramos por 4 anos gostosos, mas que de repente, no meio do ano nos surpreendera levando a criança para outra escola bem diferente. O que teria acontecido?

Minha natureza é oferecer acolhimento, escuta e não julgar. Busco entender e ajudar a encontrar a melhor solução para todos os envolvidos. A fala que mais me impactou foi “havia uma trava em meus olhos, era como se não enxergasse mais o que havia me levado até lá e me feito ter escolhido a Maré”. O que aconteceu para que esta família precisasse sofrer, especialmente a criança, para que essa compreensão se restabelecesse?  A qual compreensão estou me referindo? A compreensão do que é importante numa escola!

Avaliar a outra escola não me é possível, nem ético.  Preciso reavaliar sempre e cada vez mais a nossa forma de comunicar com as famílias, de as trazer para dentro, dentro dos afetos, dos tempos tranquilos da infância, do livre brincar, do viver a natureza, ser criança com a plenitude da curiosidade de quem quer descobrir o mundo, do questionar, refletir e do aprender.  Como dar todo esse entendimento aos pais? Como estabelecer um vínculo que ultrapasse o conhecimento dos cuidados, da alimentação e bem estar físico para o envolvimento na ação pedagógica?

Me parece que, em geral, os adultos esperam que seus filhos voltem para casa alimentados, comportados, cheios de conteúdos e com a garantia de que no futuro se tornarão bons profissionais e terão um bom emprego! Simples assim?  Mas, sem a participação deles? Como fazê-los participar e  validar o que acontece com seu filho na comunidade escolar? Como faze-los entender que a pasteurização faz parte de uma educação retrograda, ultrapassada; que uma criança questionadora , curiosa e que tem o prazer em vivenciar o aprendizado terá muita chance de ser realizada, feliz nas suas escolhas futuras e mais resistente a tantos apelos danosos aos nossos jovens?

Vamos voltar no tempo e rever o dia que soubemos que a criança iria para a outra escola.  A mãe estava precisando voltar da licença maternidade, pois o segundo filho já ia completar 4 meses. Então iniciou a procura por berçário e, acabou indo conhecer uma escola que lhe ofereceu a possibilidade de os dois filhos estarem juntos.   Fato este, que aqui na Maré ainda não seria possível, visto não termos berçário.

Naquela manhã fomos formalmente informados que haviam encontrado um lugar muito bacana que, apesar da aprendizagem formal, via apostilas, perceberam algumas coisas semelhantes à Maré.  Um lugar amplo, com intensa aprendizagem na segunda língua.  Receberam uma proposta financeira excelente para os dois filhos, que deveriam iniciar imediatamente.  A decisão estava tomada.

Durante a conversa procurei ouvir bastante, tentando entender o que tinha acontecido.  Onde os pais haviam soltado o fio de conexão com a nossa escola? Uma das falas que eu ouvi foi: “Nos mostraram as apostilas, eu sei que você não gosta, Rê, mas nos pareceram bastante lúdicas. Vimos também que há natureza, horta, e projetos coletivos, semelhantes ao que há na Maré. Achamos parecido!” Que ilusão, que confusão!  Mas como dizer isso naquele momento? O que precisa a criança? Viver a aprendizagem ou estudar nos livros?

Minha velha indignação cresceu.  Eu não sei ensinar os adultos! Como é difícil mostrar aos pais o que é importante para as crianças, o que é a infância, o que é aprendizagem significativa, a importância da mediação de conflitos, do desenvolvimento de competências socioemocionais… Será que isso querer muito? É pedagogês? Blá blá blá da Regina?

Depois de certo tempo eu falei: eu discordo!  Eu acredito noutra coisa, nossa escola pratica outros valores, seus filhos merecem ser quem verdadeiramente são, ter os tempos respeitados e aprender o que realmente importa na vida. Merecem viver a infância com respeito, carinho, escuta. É preciso que reavaliem seu critério de escolha. E segui por aí algum tempo, mas percebi que não havia eco.

Nas primeiras semanas pós rompimento conosco se estabeleceu um silêncio.  Dolorido para mim, que receava o que estaria vivendo nossa menina.   Depois durante uns dois meses surgiram curtidas da família nas postagens da Maré.  Eu me questionava o que significaria essa “apreciação” à distância. E, aquela tarde de choros e abraços  revelou que a família enfim percebeu o equívoco que havia cometido. 

O retorno da menina e sua família foi vivido de maneira alegre por toda a comunidade educativa, tanto as crianças, como os professores e pais se congratularam em recebê-los de volta.  Logo, os problemas apontados pela mãe se diluíram e a pequena estava novamente inserida num contexto de confiança e acolhimento para lidar com suas emoções e comportamentos.  Estamos todos envolvidos em oferecer-lhe o que é importante neste momento e em seguida virão os desafios que precisará ultrapassar.

O que aprendemos com esta história? Que escolher uma escola é uma grande responsabilidade! O que os pais levam mesmo em consideração ao escolher uma escola? Quais os critérios que consideram importantes? Espaço físico? Conteúdos programáticos? Aulas extracurriculares? Os pais percebem a importância do desenvolvimento socioemocional na formação dos sujeitos? Como chegarão à adolescência as crianças emudecidas por este sistema educacional arcaico e conteúdista que tantas escolas ainda praticam? Quais serão as competências dos profissionais do futuro? Quais serão as profissões do futuro? 

Antes de escrever este texto pedi autorização à respectiva família.  Tive não somente a autorização, como também a concordância sobre a importância deste testemunho.  Desejo que os leitores sejam provocados a quebrar seus próprios paradigmas e buscar respostas novas para o mundo novo que está declarado a cada amanhecer. 

Regina Pundek

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