Regina
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"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Registro de um professor

por kidsadm - 19 novembro, 2020

Uma das forças motrizes da aprendizagem é a resolução de problemas. Vejam só que caso curioso:
A coelha da escola teve filhotinhos na horta. Só que ela não teve tempo de cavar uma toca, então improvisou uma espécie de ninho com seu próprio pelo. Temendo que os bebês ficassem desabrigados (e a coelha, por instinto, precisa de uma toca para cuidar dos filhotes), as professoras do Infantil fizeram uma tenda para abrigar a família de coelhos.
Porém, estamos no período de tempestades, e o abrigo pode ceder. Reunimos as crianças do Fundamental para conversar sobre esse problema, e foi sugerido construir uma casinha de madeira, resistente às chuvas.
Após uma longa (e riquíssima) assembleia, foi decidido que um grupo ficaria responsável por tal construção: João Oda de 06 anos, Gabriel de 07, Bruno e Henrique de 10, e João Pundek de 11. Eu me voluntariei para tutorar o projeto.
Fomos à horta e as crianças tiraram as medidas da tenda. Depois passeamos pela escola à recolha dos possíveis materiais para a construção: telha velha, toquinhos de madeira, placas de madeirite. Os três meninos mais velhos discutiam sobre calhas e telhados, enquanto os mais novos desenhavam seus projetos.
Os cinco unificaram as ideias em uma única ideia: Fariam uma cabana triangular.
No dia seguinte, iniciamos a medição dos materiais. O menino mais velho chamou os dois mais novos para ensinar a usar a trena. Ele perguntava sobre os números, e até ajudou a fazer contas para descobrir a metade das metragens.
Os outros dois meninos insistiam que era necessário fazer um cálculo, parecido com o que eles aprenderam a fazer para construir a cabana da floresta no ano passado. A justificativa era de que não poderiam cortar as madeiras sem saber qual deveria ser a metragem correta.
Um deles lembrou sobre o Teorema de Pitágoras que aplicamos no ano passado. Eu sorri por dentro, e questionei se esse Teorema era aplicável diante das medidas que eles haviam apresentado. Pontos de interrogação surgiram acima de suas cabeças, e risquei na lousa um croqui com as medidas de altura e largura da tenda dos coelhos.
– O Teorema é aplicável a um triângulo retângulo. Como podemos usar o cálculo se vocês tiraram as medidas de um retângulo? – Questionei.
Avançamos no croqui. Desenhamos a estrutura que eles queriam construir dentro do retângulo. Voltei a provocar:
– É possível usar Pitágoras nessa estrutura, porque vocês desenharam uma hipotenusa. E onde estão os catetos?
Um deles descobriu que um dos catetos é a altura. O outro descobriu que, se ele dividir a largura em 2, teríamos o triângulo retângulo, e consequentemente, o outro cateto.
– Gente! Gente! Podemos usar a fórmula do Pitágoras!!! – saiu gritando da sala um dos meninos.
Curiosamente, eles comemoravam e falavam para as crianças mais novas quem era o Pitágoras. Eu estava explodindo de felicidade, porque em toda a minha vida de estudante eu achava uma chatice ter que decorar um monte de fórmulas que nunca serviram pra nada. Tales, Pitágoras, Báskara… Nem eu e nem meus professores sabíamos a utilidade.
– Muito bem! – eu disse após a correria. Agora, coloquem as medidas respectivas a cada cateto!
Depois de anotarem, partimos para a fórmula do Teorema. Catetos ao quadrado…
– Vamos relembrar o algoritmo da multiplicação de dezenas? – Convidei.
Assim, eles descobriram quanto media o quadrado dos dois catetos, e depois fizeram a soma. Enquanto os cérebros desses dois meninos fritavam, os menores respondiam a algumas perguntas que ajudavam a concluir os cálculos. Eu teatralizava com pulos as quantidades para que eles fizessem as somas. Gargalhadas ecoavam pela sala. Um dos “veteranos” disse aos “calouros”:
– Ah, vocês vão ver que é muito legal aprender matemática assim!
E no meio das risadas veio a pergunta:
– Rô, a soma total dos quadrados dos catetos deu 3.050! Vamos ter que cortar uma madeira de 3.050cm? É muito grande!
– Tem um detalhe que a gente precisa atentar – respondi. A hipotenusa está ao quadrado…
– Então a gente tem que tirar a raiz quadrada de 3.050, porque é a operação invertida do número ao quadrado! – arriscou um deles.
E lá foram esses dois meninos usarem o algoritmo que eles aprenderam para fazer uma estimativa de número cuja multiplicação por ele mesmo pudesse se aproximar de 3.050. A essa altura, os meninos mais novos do grupo estavam fazendo as marcações na telha sob a supervisão do mais velho, que era muito atencioso e paciente.
Eureca! Por fim eles descobriram que o número aproximado para esse cálculo é 55. Logo, precisariam de uma madeira que tivesse 55cm de comprimento por 45 de largura.
A hora avançou e não haveria tempo para construir a casinha dos coelhos. Guardamos o material porque logo seria a saída deles. Antes de deixarem a sala, um deles disse:
– Rô, não apaga a lousa, porque aqui está tudo o que a gente aprendeu hoje.
Eu não apaguei. Mas como o giz sai com facilidade, eu tirei uma foto. Porém, a maior lembrança que teremos deste dia certamente está no coração dessas 05 crianças e desse educador que transborda felicidade.

Rodrigo Toyama

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