Regina
Blog Somos Maré

"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Sou a professora de literatura das crianças do Fundamental 1 na nossa escola. Na verdade, sou mesmo é uma contadora de histórias cujo repertório busco casar com o que está acontecendo em cada grupo de crianças. Assim, procuro dar forças ao que eles estão descobrindo, pesquisando ou fazendo.

Chamamos nossos encontros semanais de Literarte, porque eles gostam de desenhar enquanto eu conto as histórias. E, eles fazem registros muito especiais. Agora na quarentena eu peço que fotografem e me enviem porque oriento minha ação pela forma como revelam o que lhes importa e como estão nesses dias tão incomuns!

Aqui vai um registro meu de alguns dias sequenciais, durante a quarentena. Foram encontros que me deixaram vibrando como quem faz um grande gol (e olha que eu nunca joguei futebol, hehehe), e sem que a tecnologia tivesse conseguido tirar o prazer ou a aprendizagem de todos os envolvidos!

Grupo 3 – o grupo de maior autonomia de pesquisa do nosso F1 – 8 crianças
Professor: Rodrigo Toyama
12.6.2020

Comecei o momento lendo da Cecília Meireles o poema Jogo de Bola – gosto muito de começar lendo poesias, acendendo uma vela e um incenso. Peço que as crianças sintam o calor e a luz da vela, depois o perfume do incenso e digo que a poesia é para dar um quentinho nos corações.

Neste dia, assim que terminei de ler o poema, o Thiago pediu para tocar piano para todos. De costas para a câmera ele tocou Asa Branca. Tão pleno em sua inteireza de criança, tão seguro de estar oferecendo aos colegas um presente. E, assim foi até para mim. Como não pensar na minha mãe? Ela gostava dessa música, da sanfona e dos versos. Quando ele terminou todos aplaudimos!

Verifiquei se todos tinham o material para desenhar, se estavam bem acomodados frente à uma mesa, microfones desligados e lá fomos nós, com a grande ANA MARIA MACHADO, passear numa época em que os “escrevedores” ficavam numa praça vendendo seu serviço para a população do vilarejo que era de maioria analfabeta. A história chama-se DE CARTA EM CARTA. Um menino e um avô resolvem seus conflitos pessoais e sociais através de cartas um ao outro. O escrevedor exige que o menino pague as cartas indo a escola. No final o garotinho já frequenta a escola com gosto e já lê e escreve. Então ele envia uma carta ao “Seu Governo” explicando que o avô tem direito à aposentadoria, já é velhinho, trabalhou muito a vida inteira e merece descansar, tomar água de coco à sombra das árvores e ficar pensando na vida. O avô é chamado num posto de atendimento onde leva documentos e, consegue a desejada aposentadoria!

Enquanto as crianças me mostravam os desenhos que fizeram durante a contação, íamos conversando sobre a lindeza da história, a importância das cartas, o desejo de escrever para alguém. Percebi o quanto as crianças estavam interessadas e era o que precisávamos. Além de ser o que eu desejava! Passei a vida escrevendo cartas! Só agora, uma senhora de meia idade, é que me tornei meio ausente dos correios devido aos avanços (só avanços?) tecnológicos. Mas eu ainda gosto de receber uma carta de verdade! Ano passado recebi duas lindas: uma do André Gravatá, poeta das miudezas, e outra do Tião Rocha, educador que atua à sombra das mangueiras lá para as bandas das Minas Gerais. Foram palavras gostosas que esses amigos me enviaram por ocasião do lançamento do nosso livro PICOLÉ E SORVETE PARA TODOS – Percursos de uma Escola Inovadora e Criativa. As duas estão num bauzinho de madeira que ganhei de uma criança da Maré, na primeira cerimônia de encerramento de ciclo, há 17 anos. Essa criança tornou-se estudante de pedagogia, trabalhou conosco e depois alçou voo em outras paragens.

Bem, vamos voltar para nossa Literarte! Sugeri que as crianças pensassem em uma pessoa para quem gostariam de escrever uma carta. E, também o que gostariam de contar e, o que pretendiam perguntar.

19.06.20202 Chegou o dia de escrever. Todas as crianças estavam com papel, lápis e envelopes preparados. Um a um foram contando para quem iam escrever. Aqui do outro lado da tela, o professor Rodrigo e eu, fomos trabalhando os textos, para que revelassem as intenções e os sentimentos. Teve carta para avós e tias, primos que moram do outro lado do planeta, Youtubers, e algumas para os próprios amigos do grupo. Algumas cartas tinham também desenhos cheios de carinho.

26.06.2020 – Bem, eu não queria deixar a peteca cair. As cartas estavam pulsando. Embora um dos problemas levantados ainda estivesse sem solução. Não dava para pedir que as famílias fossem ao correio para postar…

Vamos começar a história de hoje? OS TESOUROS DE MONIFA – de Sonia Rosa Rosinha

Precisei compartilhar o livrinho na tela porque ainda não tinha chegado em casa o que comprei. Então, como ainda não aprendi a fazer isso, o professor Rodrigo meu ajudou com a tecnologia.

Essa história conta o presente que uma tetravó, trazida da África como escrava, deixou numa caixa para seus descendentes. São lindas cartas, bilhetinhos, pequenos diários. Essa tetravó chama-se Monifa, que significa “eu tenho sorte”. A narrativa conta de uma menina que recebe tal tesouro, lê as mensagens, se emociona percebendo seu pertencimento à vida de seus antepassados.

Quando pedi para as crianças me mostrarem seus desenhos sobre a história de Monifa, entabulamos uma conversa sobre nossos antepassados. Quem sabia já contava pedaços de suas próprias histórias. Então, sugeri que para nosso próximo encontro de literatura, trouxessem documentos, cartas, bilhetes. Pedi preferencialmente coisas escritas, mas que resgatassem a oralidade com seus avós e pais, para que também pudéssemos contar mais sobre quem somos.

03.07.2020 – Assim que entrei no zoom e começamos a conversar, percebi como a emoção estava presente para as crianças pela quantidade de dedos levantados querendo mostrar o que haviam trazido. Veio muita coisa além do que eu pedira. Cartas que as próprias crianças ou seus pais receberam dos avós e bisavós quando nasceram, convite de casamento dos avós, boletim de escola de um avô muito inteligente, mas que só tirava nota baixa porque sua escola era de decorar e responder perguntas (palavras da filha), um livro de registros de fotos e mensagens dos convidados do aniversário somado de 160 anos = 80 do biso + 80 da bisa, uma boneca de porcelana, uma colcha de crochê feita por uma bisavó, um poema que uma bisavó escreveu para o nascimento da bisneta, espadas de um avô que serviu o exército, um potinho de lembrança de aniversário de um avô japonês, uma carta de uma madrinha agradecendo ter sido escolhida para batizar uma bisavó. Fomos parar em 1930!!! Eu estava emocionada, e manifestei para cada criança a minha alegria de conhecer um pouco mais sobre eles. Algumas crianças desse grupo que conheço há tanto tempo, alguns desde a barriga das mães e outros desde as fraldas, mas nesse dia se abriu uma nova perspectiva, um jeito novo vê-las, mais inteiras!

No meio dessa conversa toda o professor Rodrigo e eu falamos para as crianças sobre o Museu do imigrante. Contamos de uma vez, que toda a equipe de professores foi lá numa Semana Pedagógica. Eu contei como chorei naquele lugar, em frente a uma parede onde estão escritos milhares de sobrenomes. Todos nós, vindos de tantos lugares, com culturas tão diferentes, somamos esse povo! Somos miscigenados! Somos brasileiros!

Vamos fazer uma excursão até esse museu na próxima aula de literatura, Rê? – sugeriu o professor Rodrigo
O que acham crianças? – perguntei

Mas e a quarentena?

Ué, vamos no faz de conta e no virtual!! Topam? – eu logo solucionei o problema!

OBA! OBA! OBA!- vibraram nossos meninos e meninas.

Então, lembrem de trazer as lancheiras com guloseimas sem lixo e venham de tênis e roupas confortáveis para não cansarem, tá? Rsrsrs – complementei, fantasiando.

10.07.2020 – Chegou o grande dia! Passeio ao Museu do Imigrante

Quando entrei na tela do zoom o Rodrigo já estava lá com diversas crianças. A pontualidade declarava a alegria, a curiosidade e vontade de fazer o passeio!

O planejamento do passeio tinha ficado ao encargo do Rodrigo. A professora Karina foi convidada também, afinal quando vamos para rua é bom ter mais olhos e braços contornando as crianças, né não?

O carinho do Rodrigo pulsou logo no primeiro momento. Ele gravou a voz do Bruno, nosso porteiro, que anunciou:

ATENÇÃO CRIANÇAS DO GRUPO DO RODRIGO, O TRANSPORTE PARA O PASSEIO AO MUSEU CHEGOU!

EHHHH – gritaram as crianças felizes!

E lá fomos nós, entramos na van, sentamos, colocamos o cinto de segurança e eu fiz a usual oração de dias de passeio. Eu falo e as crianças repetem:

“Anjinho da guarda meu bom amiguinho me leve sempre pelo bom caminho, cuida de mim, na ida e na volta, e lá no museu. Eu prometo cuidar de mim também e me divertir. Ah, por favor, enche de alegria o meu coração!”

Pedimos permissão ao motorista e tomamos o lanche dentro da van. Brincamos de compartilhar frutas e sanduiches virtualmente. (será que um dia vai rolar essa possibilidade tecnológica?)

Então, chegamos ao belo Museu. A partir daqui, o registro foi feito pelo Rodrigo:

“O Google Maps nos indicou o caminho da escola ao museu. A imagem em 360º da fachada arrancou suspiros das crianças. Estavam encantadas com a beleza do lugar! Apresentei algumas fotos do museu. Afinal, a arquitetura do local já é um passeio pela história.

Perguntamos como os imigrantes chegaram ao Brasil, e o porquê. As crianças foram falando as suas hipóteses, e fizeram também algumas perguntas. Uma dessas perguntas era sobre a razão pela qual os navios chegavam cheios de pessoas, e qual o motivo de vir tanta gente para o Brasil ao mesmo tempo.

De forma leve e verdadeira, abordamos as questões sociais, econômicas e políticas da época. Passamos pelo fim da escravidão, da necessidade de trabalhadores nas lavouras, dos incentivos do governo à vinda de imigrantes europeus e asiáticos, das condições precárias de vida que abandonaram em suas terras natais para viver uma nova vida no Brasil.

À medida que a visitação ia avançando, novas conversas surgiam. As crianças ficaram muito impressionadas com os relatos em vídeo dos imigrantes. Também demonstraram bastante interesse a cada foto que surgia (quem já visitou o Museu da Imigração compreende a emoção que sentiram nossas crianças).

Falamos da saudade da terra, da dor de deixar a família, da coragem de viver uma nova vida, das dificuldades com a língua, do estranhamento cultural.

Depois da visita, as crianças contaram um pouco das histórias de suas famílias.“

De microfones sempre abertos, vivemos um passeio virtual com esses meninos e meninas de dar gosto!

No final eles diziam: EU GOSTEI! EU GOSTEI! EU GOSTEI!

O Rodrigo e eu estávamos exultando de alegria. Uma certa alquimia reverberava no ar. Começamos a dizer tchau e as crianças foram saindo um a um. O Rodrigo e eu ficamos um pouco mais. Nos olhamos rindo por dentro e por fora.

E tudo o que conseguimos dizer foi: Nossa, que dia! Quanto todos nós temos aprendido!

Regina Pundek

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