Regina
Blog Somos Maré

"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

O velho “Normal”, agora pelo Zoom

por kidsadm - 15 abril, 2020

São inúmeros textos, artigos, blogueiros, educadores, economistas, médicos, etc, etc, (inclusive eu, agora) falando e escrevendo sobre os impactos da pandemia do coronavírus no planeta, na sociedade, nos velhinhos, nas crianças. Já li tantas coisas; já concordei e discordei de tantas outras. Mas o convite que faço agora é uma reflexão: estamos dispostos a mudar nosso “normal”? Ou melhor, estamos dispostos a abrir mão do que tínhamos antes e que agora estamos considerando tão importante? E aqui leia-se: falta de tempo, insatisfação no trabalho, no casamento, dificuldades nos relacionamentos, desconexão com nosso corpo e com nossa alma. Não serei estúpida em negar que todos estão preocupados em manter seus empregos, sua renda, a comida na mesa; são inúmeras as reais preocupações. Todos estão buscando alternativas nos seus trabalhos, com suas crianças, em suas casas. Mas alternativas para que? Para manter o “normal” de antes?

Essa semana fiz o atendimento online de uma menina de onze anos. Diante de sua aparente conformidade com tudo o que estamos vivendo, perguntei como ela está se sentindo com tudo isso. “NORMAL”, me respondeu ela. E continuou “estou tendo aulas chatas, mais difíceis de entender pelo computador, vou ter provas e trabalhos, igual ao que era antes”. Me contou ainda, que todos os dias tem que acordar às sete da manhã (hora que as “aulas” online começam) e que no período da tarde tem a “lição de casa” que foi passada pelos professores de manhã. A fala dela me preocupou, e muito. Se o NORMAL da escola já me preocupava antes, agora, então, me aterrorizou!

Quando a quarentena começou e percebi um movimento das escolas particulares para proporcionarem “algo” às crianças, afinal, o “show tem que continuar”, tive um lampejo de esperança e curiosidade: diante do novo que se apresenta de forma contundente, como a escola irá se reorganizar?

É de conhecimento de todos que o modelo educacional que vivemos hoje, e que continua o mesmo desde o século XIX, já está na UTI há muito tempo. Conteúdos desconectados da realidade e sem significado prático para as crianças, competitividade em detrimento de cooperação, provas que não provam nada e só avaliam a capacidade de decorar conteúdo, etc. Crianças e jovens que diariamente iam à escola para, com suas vozes caladas, ouvirem o professor explicar algo que a maioria não quer saber. Professores ruins? NÃO! Aulas mal preparadas? NÃO! Professores bem intencionados que se desdobram para fazer um bom trabalho, que não sabem ou não lhes é permitido fazer diferente, também vítimas de um SISTEMA arcaico e cego às necessidades do mundo atual.

Eis que, em meio a uma pandemia que ameaça a vida de milhões de pessoas pelo mundo, a velha escola invade as casas das crianças em modernas plataformas online. Sim! As mesmas aulas expositivas e sem significado algum com uma bela e nova roupa! E o melhor! Tem um recurso para deixar todas as crianças mudas, com seus microfones silenciados, apenas sinalizando para o professor com uma mãozinha verde piscando, que o aluno deseja falar. Mas antes que todas as mãozinhas verdes piscando tenham a sua voz “desmudada”, a aula online já acabou. Se há outras formas de fazer? Certamente! Inúmeras novas formas a serem experimentadas. Muitas não darão certo? Com certeza, mas mais certeza é de que do jeito que está, não está funcionando. Usar as ferramentas online para velhas práticas é o mesmo que tentar colocar um disco de vinil dentro dos Ipads! Simplesmente não encaixa! Mas consigo imaginar um professor de ciências fazendo um tour virtual com os jovens no Museu de História Natural de Londres, ou o professor de química provocando os alunos a buscar produtos químicos como vinagre e bicarbonato de sódio em suas casas para alguma experiência, ou para compreender alguma fórmula ou princípio. Vai dar certo desse jeito? Não sei, mas se não der certo assim, busca-se outro jeito. O certo é que o NORMAL de antes já não existe mais, fato! As famílias estão mexidas, desinfetar sacolas de supermercado com álcool é o novo NORMAL, assim como fazer aniversários pelo Zoom; a educação; a saúde, então, nem se fala! A economia, os empregos, nossa sanidade mental, nossa saúde emocional. Não dá pra continuar emudecido, buscando o antigo normal dentro da incerteza desse momento. Já há gente fazendo diferente? Sim! Algumas escolas já apresentam práticas educativas inovadoras, condizentes com o século que vivemos e as demandas do planeta, e que, diante do cenário atual encontraram seu “lugar” dentro das casas nesse momento, utilizando de ferramentas que se encaixam com suas propostas. Fácil? Nem um pouco. Ousado? Sim.

Essa semana o governo de São Paulo anunciou a “retomada” das aulas dos alunos de escolas públicas. Fiquei imaginando: se na esfera particular está desse jeito, o que acontecerá com alunos e professores da rede pública? Onde ainda há que se lidar com falta de computadores, internet, merenda… muitas vezes, várias crianças em idades diferentes disputando o único celular da casa para ter suas aulas. Enquanto meu pensamento percorria os piores cenários possíveis, minha prima, professora de Ed. Infantil da rede municipal de ensino em São Paulo, me manda uma mensagem, em tom desesperado, contando que tinha dois dias para se preparar para começar aulas online com 30 crianças de 4 anos! “Tenho famílias com 5 crianças, mãe desempregada e pai preso, como eles vão fazer?”. Sua mensagem tinha duas perguntas implícitas, além de muito sofrimento: como e pra que eu vou fazer isso? Acolhi como pude, apresentei novos caminhos. Vai dar certo? Não sei, vamos tentar? Talvez só “ver” a professora querida na tela do celular é o acolhimento que a criança precisava naquele dia, uma voz de apoio para aquela mãe.

Acolhimento, apoio, escuta, amor, é o que precisamos passar pelas telas dos computadores e celulares. Convido-os a descartar o velho NORMAL e a buscar o novo que cada um pode dar nesse momento.
Aula online, professora fazendo um ditado:
“Mãe, vírus é com S ou Z?”
“VíruS é com S, meu filho, e esperanÇa é com C cedilha”.

Janyssa Szanto
Psicóloga, Educadora da Maré e mãe da Sofia

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