Regina
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"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Mitos – o masculino e o feminino

por kidsadm - 4 setembro, 2019

Convidei a turma para irmos para a sala do soninho, que estava vazia e eu queria fazer combinados e falar sobre eles (leis = mitos). Falamos que o combinado seria controlar os corpos para não perder concentração, entendimento e participação. Um grande desafio para crianças que ao sentar no chão gostam mesmo é de deitar, rolar e cutucar os amigos com os pés. Eles estavam curtindo a ideia de ouvir história naquele recinto de tapetes e cortinas, tão aconchegante.  E, eu queria mesmo era conversar sobre a criação de leis ao longo dos tempos, falar do surgimento das cidades e a necessidade das leis.

Então fiz perguntas sobre MITOS, pois estamos nesse tema há quatro semanas.  Quem lembra porque os humanos começaram a inventar mitos?  Os mitos são úteis?  Quais são os mitos de nossos dias?

As respostas me mostraram que a escuta, compreensão e reflexão das crianças têm sido boa.  Este semestre estamos lendo MITOLOGIA GREGA – UMA INTRODUÇÃO PARA CRIANÇAS – HISTÓRIAS DE DEUSES, DEUSAS, HERÓIS, MONSTROS E OUTRAS CRIATURAS MÍTICAS.  Às vezes, fazemos LiteLEITURA (lemos todos juntos), outras vezes é LiterARTE (eles desenham enquanto eu conto a história), LiteCINE (assistimos vídeos relacionados às histórias) e LITERATURA pura!  Às vezes, ofereço escolha e uns desenham e outros não.

Hoje lemos: ATALANTA E A GRANDE CORRIDA.

Atalanta nasce menina desapontando o rei, seu pai, que manda os soldados a abandonarem no alto de uma montanha para que morra.  Felizmente uma ursa, recém parida, a acolhe e cria. E a Deusa da caça também a ajuda.  Ela se torna forte, corajosa e veloz. ….

Cutuquei a memória das crianças e eles resgataram a historinha da Ana Maria Machado, que lemos há alguns meses, A PRINCESA QUE ESCOLHIA.  Os dois enredos são semelhantes e altamente provocativos para esta professora, que tanto quer ajudar as crianças na percepção das questões do mundo masculino e feminino.

A conversa com as crianças foi cheia de riquezas. O rei aceita Atalanta de volta ao castelo, quando ela já é uma moça, mas condiciona seu retorno a um casamento arranjado por ele.

Gente, será que ela vai aceitar a condição que o rei estabeleceu?

NÃO!

O que achas, Catarina? Ela precisa casar?

Eu acho que não. Um homem vai querer mandar nela, não vai mais deixar ela caçar e correr, que ela ama fazer.

Então, o que vocês acham que as mulheres querem? O que elas merecem?

Ser felizes!

Mas ser feliz também é um mito, não é?  Isso de ser feliz foi o ser humano que inventou. Como uma mulher pode ser feliz?  O que ela quer?

Ela quer escolher, decidir!, foi a resposta de um menino.

Eu não sabia, mas esta manhã no momento de Assembleia a conversa do Fundamental 1 foi sobre regras. As crianças me contaram que fizeram um código de leis porque estavam incomodados com algumas questões.  Questionei se as leis criadas são diferentes para meninos e meninas, grandes ou pequenos, leitores e não leitores….  Não, claro que não, foi a resposta veemente.  Então, contei sobre o Código de Hamurabi, cujas leis eram tão diferentes para as diferentes castas. Relatei uma das leis do código citado para que as crianças percebessem como se entendia a justiça no sec XVIII ac.  Um dos meninos se contorceu e fechou os olhos durante minha fala, pois as punições eram realmente assustadoras. Então, perguntei se achavam justo o Código de Hamurabi e porque.  A provocação surtiu efeito! A indignação não estava focada somente no tipo de punição de tal Código, mas também nos privilégios e desvantagens das castas e, o mais marcante, na própria divisão social em castas. Yes!!

A minha pergunta seguinte foi: Será que daqui a mil anos, quando nossa civilização for estudada, o que os pesquisadores vão pensar sobre as nossas leis?  Vão considerar justas?

O final do mito Atalanta conta que pela intervenção da Deusa Afrodite, ela se apaixona e casa.  A última frase da história é: “ eles foram felizes para sempre, porque o marido, Hipomene, permitia que a esposa corresse e caçasse.”

Olhei para uma menina e perguntei se ela tinha gostado do final da história. E ela respondeu que não, que não gostara nem do começo, que era uma história muito pesada. Eu concordei e localizei meu incomodo na palavra permitir.

Perguntei aos meninos o que eles acharam e um deles disse que o marido não tinha nada que permitir, que era direito dela fazer o que gostava de fazer, que o marido e ela tinham que ser companheiros.

Íamos saindo do espaço do soninho, encontramos descendo as escadas algumas crianças, entre elas observei saltitando uma menina vestida de batman e usando um arquinho de unicórnio. Lá se foram eles para a quadra todos juntos.  Pensei: ufa, que bom, ela pode ser quem quer ser, ao menos por aqui.

Regina Pundek

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