Regina
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"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Literatura – 21/08/2020

por kidsadm - 8 setembro, 2020

Dando continuação ao tema dos imigrantes estou lendo uma pequena coleção que comprei lá na loja do Museu da imigração quando nossa equipe esteve lá numa Semana de Estudos Pedagógicos. Já li para as crianças: MEU AVÔ É PORTUGUES e MEU AVÔ É ITALIANO

Hoje começamos a leitura de MEU AVÔ É AFRICANO

11:15hs – Iniciamos o momento ouvindo o Luís e a Nina lerem seus resumos da leitura da semana anterior. A proposta tem sido que as crianças façam registros escritos além dos desenhos, para que aconteça uma sistematização mais focada no desenvolvimento da língua portuguesa, da articulação das ideias e compreensão de início meio e fim. Eu digo que é para usarem suas próprias palavras e registrar a sua percepção do que aconteceu de forma ampliada, não somente um resumo da história, mas um resgate de memória do momento vivido além do livro. E, hoje eu quero registrar a minha, pois jorrou um tantão de emoção pela tela.

Quando falei o título da história do dia surgiu uma conversa sobre sermos todos africanos que foi linda, e nem planejada estava! O João contou que está fazendo uma pesquisa em que os cientistas dizem que todos os seres humanos descendem de africanos. Ele estava tão impactado com essa informação! Depois falou sobre preconceito citando fatos bem recentes vividos por jogadores de futebol. Então, eu falei que somos todos poeira cósmica e, o Rodrigo mencionou a frase de Lavoisier: Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Foi o que bastou para que as crianças transcendessem:

– O meu cabelo pode já ter sido parte de um rio!

– A minha mão já foi uma árvore!

– Minhas células já podem ter sido até um animal!

Depois li dois capítulos do livro, no meio da leitura percebi que o Thiago entrou na chamada, fiquei contente pois hoje é o aniversário dele. Estávamos todos preparados para celebrar, eu até trouxe uma vela para ele apagar.

12:00 horas. Convidei a galerinha para cantarmos, acendi a vela e a alegria de todos saiu pela voz e, também pela escrita, o CHAT ficou cheinho de THIAGO, THIAGO, THIAGO, THIAGO…

Então, chamamos a surpresa do dia! A cada final de aula uma família tem vindo contar um pouco sobre seus ancestrais. Esta foi a vez da Janyssa, mãe da Sofia. Ela começou dizendo que o maior contador de histórias de sua vida é o seu pai! Falou da importância de conhecermos histórias para não repetirmos os mesmos erros já vividos pela humanidade. Seus antepassados húngaros judeus tiveram um circo, viveram a guerra, alguns morreram por lá e seu pai veio para o Brasil. Ela nos mostrou fotos de seu bisavô que era o homem forte do circo e, suas duas filhas que eram as dançarinas. Resgatou recortes da memória de seu pai, sempre intensos revelando as dificuldades vividas em tempos nem tão distantes.

– Foi um tempo mais triste que o corona, né Janyssa?

– Sim, muito triste, muitas mortes.

– Foi quando soltaram a bomba atômica,
não é?

– Exatamente.

– Me disseram que as próximas bombas que os homens inventarão serão bombas de vírus – um menino contou ter ouvido uma conversa de adultos.

– Ah, a gente está querendo que os humanos aprendam a não fazer guerras. Precisam ter sempre na memória como foram ruins as duas grandes guerras para nunca mais fazerem outra – disse a Janyssa

– Por que existem guerras?

– Em geral por dificuldade de comunicação.

– E também por ganância. Um país quer pegar reservas naturais e outras coisas do outro país, sem pedir licença – manifestou uma das crianças.

– É. Os seres humanos precisam aprender a respeitar o outro, a respeitar a diversidade também.

– Verdade. Tem que respeitar diferenças de religião, de cor de pele, de gênero, opinião, e também de escolha do amor. Se uma mulher quer namorar uma mulher pode, se um homem quer namorar um homem pode, se um homem quer namorar uma mulher pode e, até pode ter mais de uma mulher ou marido – aproveitei para introduzir o assunto.

– É, eu vi um filme acho que é na Arábia, que um homem tinha cinco esposas. E tudo bem, ninguém estava brigando – posicionou uma menina

– Sim. Isso que é importante. Que todos aceitem, que ninguém esteja sendo pressionado a fazer o que não quer.

– É e quando eu estava viajando, uma vez, vi uma mulher com o rosto todo coberto. Minha mãe me disse o país onde daquela moça, mas eu não lembro, mas sei que lá as mulheres não podem sair na rua com o rosto descoberto.

– Sim, faz parte da cultura deles. Eu acho que as mulheres não gostam. As mulheres no planeta todo vivem situações muito ruins, há muita violência. Até no Brasil. Homens batem em mulheres.

– Isso é covardia, né?

– Sim. E tem também lugares que as mulheres não podem escolher os maridos. São prometidas.

– Lembram que a mãe do Thiago contou do seus avós italianos, que se apaixonaram e ela estava prometida para o irmão do avô. Os dois brigaram e o avô ganhou a briga e ganhou a noiva. Esta história é bem legal, né? – uma das crianças resgatou a vivência com a Flavia, mãe do Thiago, que participou do momento, quando lemos MEU AVÔ É ITALIANO

As vozes das crianças mostraram o tamanho de seus corações e a liberdade de pensar e construir um novo jeito de viver, mais justo, mais respeitoso e com mais escuta.
12:30 horário de encerrar. Vi na tela o pai do Thiago por perto.

– Vem Paulo! Galera, vamos cantar novamente para o Thiago com toda sua família?! Topam?

– VAMOS! VAMOS!

O Thiago levantou contente e foi chamar a mãe e a irmã.

– Obrigada Thiago por fazer parte da nossa história – eu disse (ele está conosco desde as fraldas)

A Flavia respondeu:

– Obrigada a cada um de vocês por estarem junto com nosso garotão!

Assim que terminou a cantoria o Thiago pediu para tocar uma música para nós.

Completou-se a cena toda! Ouvimos e vimos um menino de 9 anos, em sua casa, seguro em frente aos amigos, pais e professores tocando FÜR ELISE de Beethoven. Então, sua irmã caçula perguntou se podia tocar também e fomos presenteados com ODE À ALEGRIA, do mesmo compositor.

Olhei para o professor Rodrigo, ele estava tão emocionado quanto eu. De fato, não podia ser melhor! Nos tempos da escola-no-chão não era raro que ele passasse na minha sala no final do período, quando tinha vivido algo especial, e dissesse: QUE DIA! Pois vou repetir: QUE DIA!

Regina

(Com base nas ideias de Madalena Freire eu costumo repetir uma fala para os professores: o planejamento precisa ser feito, mas se não for cumprido é porque a aula foi muito melhor do que ele)

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