Regina
Blog Somos Maré

"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Isolados e amados

por kidsadm - 25 março, 2020

Que vivemos tempos estranhos de muita insegurança, medos e incertezas não é novidade para ninguém. De uma hora para outra nossos instintos mais primitivos vieram à tona e nosso principal objetivo passou a ser sobreviver e proteger nossas famílias. Para isso, segundo orientações técnicas, precisamos apenas reforçar os hábitos de higiene como lavar as mãos e usar álcool gel e, limpinhos encararmos essa guerra. Nesse caso o front de batalha significa nos isolarmos em nossas casas para diminuirmos a velocidade de proliferação de um vírus altamente eficaz em se espalhar, e assim salvarmos a vida de nossos idosos e tentar contribuir para que o sistema de saúde de um país já bastante debilitado não entre em colapso absoluto. As medidas de segurança sanitária são simples, basta FICAR EM CASA. Simples pode ser, fácil nem tanto.

No momento inicial desse processo fomos expostos ao pior dos males contemporâneos, as FAKE NEWS. O excesso de informações desencontradas ajudaram a criar o clima de pânico que se amplificou através das redes sociais, e testemunhamos corridas aos supermercados, produtos essenciais se esgotando nas gôndolas e o lado egoísta do ser humano prevalecendo. Constatamos que o povo brasileiro ainda é, em sua grande maioria, mal educado e raramente demonstra empatia e solidariedade.

Ao longo dos primeiros dias de isolamento péssimos exemplos foram registrados. Pessoas considerando que o mundo estava entrando em férias coletivas remuneradas não perderam tempo em correr para as praias e parques, garantiram logo o abastecimento de suas churrasqueiras e geladeiras de isopor para curtirem um lugar ao sol no meio da festa. Também com gente importante dizendo que tudo isso é exagero, histeria e que estamos encarando apenas uma “gripezinha”, o povo quer mais é aproveitar e quem ficar doente que se vire. Mais uma vez o lado negativo foi constatar o quanto a ignorância e a falta de informação fazem mal ao coletivo de uma nação. Ao meu ver a educação ainda é a única forma de revertermos esse cenário.

A primeira segunda-feira chegou e com ela o primeiro dia em casa com as crianças, o primeiro dia sem ir para a escola. Energia a mil, vamos tirar de letra, vamos preencher o tempo dos pequenos com atividades de muita qualidade e ao mesmo tempo vamos conseguir nos organizar para trabalhar, controlar a ansiedade, a preocupação com minha mãe idosa que está em casa sozinha, a tia da minha esposa de 90 anos que ficará com as cuidadoras, cuidar das compras de supermercado pela internet, manter o astral elevado e ao mesmo tempo acompanhar as notícias da guerra. Primeiro dia para conta, foi moleza, cansou um pouco, mas ok, conseguiremos atravessar tudo isso sem maiores complicações. Ao deitar na cama me dei conta do quanto estava cansado e de como driblei minhas preocupações durante o dia inteiro, e ali no escuro de olhos fechados tentando dormir, encarei de frente meus pensamentos preocupados que passam a martelar insistentemente na minha cabeça. Demorei a pegar no sono e tive pesadelos.

O segundo dia começou com uma pergunta inocente e singela dos meus filhos, – Papai quando voltaremos para a escola? O “corongavírus” vai deixar a gente doente? A vovó vai morrer?

Estávamos apenas no início do segundo dia e me dei conta pelas perguntas dos meus filhos que esse dia seria um pouco mais longo que o dia anterior. Respondi com muita tranqüilidade que as aulas voltarão assim que o “coronga” passar (esse passou a ser o nome do vírus em casa, foi batizado pela minha filha). Expliquei que exatamente ficando em casa nos protegemos e assim protegeremos a vovó também. Mas me dei conta de que a total falta de noção do tempo que essa condição durará, foge completamente do nosso controle.

Nesse mesmo dia a escola se fez presente. Recebi um WhatsApp da Maré dizendo que estavam preparando atividades para que as crianças sigam de alguma forma suas rotinas durante esse período de isolamento. Me senti auxiliado, amparado e menos solitário em nosso isolamento. As crianças que estavam apenas há dois dias em casa e já com saudades, se sentiram acolhidas, percebi a manifestação de um sentimento que já conheço, eles AMAM a escola! Por um minuto pensei que eu nunca tive essa relação sentimental com as escolas nas quais estudei, e que com todo esse amor demonstrado pelos meus filhos, eles com certeza não serão adultos insensíveis como os que o “coronga” tem nos revelado.

A primeira semana passou, as preocupações e a ansiedade apenas aumentaram. O home office tem se mostrado extremamente eficiente e quem sabe esse cenário não sirva para que algumas relações e modelos de trabalho sejam reavaliados. Porém, é preciso muito cuidado senão você acaba trabalhando tempo demais. O mais bacana e o mais importante foi constatar que o momento das atividades junto com as crianças tem sido o melhor e mais desafiador do isolamento.

Estamos no meio da segunda semana e não sabemos quanto tempo mais ficaremos em isolamento social, poderemos seguir nessa condição por meses, mas não nos sentimos sós, fazemos parte de uma maré de positividade que não para de nos inspirar.

Os vídeos com mensagens, histórias e atividades enviados pela Maré tem sido importantíssimos para as crianças e um “intervalo desafiador de leveza” para mim. Sinto amor no conteúdo, sinto respeito pelos meus pequenos, sinto preocupação em mantê-los ativos, e como pai me sinto confortado e assistido. Sinto também o quanto é desafiador ser um educador profissional, alguém que tenha a consciência de seu papel e o exerça por amor. Sinto que por mais que eu queira não sei “ser” professor, sou pai e apenas me sinto satisfeito pelas minhas escolhas em relação a educação dos meus filhos.

Não temos a menor idéia de como será quando essa tempestade passar, sabemos que muitas serão as dificuldades e que muitos estabelecimentos fecharão suas portas. Pela primeira vez na história vivemos uma condição onde a dificuldade será a mesma para todas as pessoas em todos os setores, por isso mais do que nunca precisaremos de uma consciência coletiva de subsistência. Teremos que nos ajudar mutuamente para seguirmos navegando, e em meio a tudo isso sei que a Maré passará por dificuldades assim como eu, mas queria dizer que estarei ao lado da Maré assim como sei que a Maré sempre estará ao lado dos meus filhos. Juntos somos mais fortes, somos todos a Maré.

Muito obrigado!

Alexandre Paiva Pires – Pai de duas crianças que estudam na Maré

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