Regina
Blog Somos Maré

"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Gaiolas

por Kid´s Home - 28 outubro, 2019

Sábado, de repente enquanto tinha minhas mãos e pés manipulados por lixas, alicates e esmaltes se estabeleceu um silêncio cheio de curiosidade na saleta cheia de mulheres.  A jovem bonita à minha frente falava ao celular com bastante naturalidade e firmeza, sem baixar o tom da voz, sem preocupar-se com o possível julgamento da escuta.

Alô, que bom que você ligou. A gente precisa combinar um horário.

Sim, ele está febril. A febre baixou. 

Mas, meu pai é médico, ELE avaliou… Agora só 37. Estava até pulando na cama elástica.

Eu mandei parar pra não gastar energia. Ele está quase sem a doença. Muitas crianças adoeceram, mas é um vírus comum.  Eu também já tive.  Que horas você passa pra pegá-lo?

Como assim? Ele está te esperando. 

Ele não está mais doente. Se estivesse com febre alta eu ficaria com ele. Mas ele está só febril. É teu final de semana. Eu tenho meus compromissos.  E, ele está te esperando.  Você vai furar novamente?

Como assim não sabe cuidar do filho doente? Vai aprender, ué. E, ele está quase bom.  Eu confio em você, sei que se ele piorar você vai medicar e fazer carinho e deixar ele deitadinho. 

O que?  Claro que você consegue. E, é seu final de semana! 

Não. No próximo ele é meu.  Eu quero ficar com ele, já temos programa agendado.

Não acredito que você acha que eu tenho essa capacidade? Isso é ironia?  Eu conseguir fazê-lo ter febre porque é seu final de semana? Me poupa! 

Eu só continuo essa conversa e não desligo o telefone porque quero que você pegue o nosso filho.  Se ele estivesse mau, eu nem estaria falando mais nada.  Mas não é o caso. E eu tenho compromisso nesse final de semana

Eu queria saber o desfecho, se o pai cedeu e foi pegar o filho ou não, mas fui chamada na sala de depilação.  Por ouvir somente um lado da conversa, eu estava incomodada com o que supunha terem sido as falas do pai…Eu não aceitei que o benefício da dúvida me permitisse sair do meu feminismo, talvez exacerbado!

Com a depiladora a conversa começou despretensiosa.  Assim como eu tive, a Silvana também tem um familiar com Alzheimer, seu avô materno.  Ela me contou rapidamente, como quem passa cera e arranca os pelos, a vida do avô, que ela admira muito.  Ele ficou viúvo aos 32 anos.  A avó morreu aos 30 num parto em que o bebê também foi natimorto.  O avô ficou com 8 filhos. O mais velho, um menino de 12 anos, na sequência a mãe da Silvana, com 10 anos e a caçula tinha somente 1 aninho.  O avô cuidou amorosamente dos 8 filhos.  Trabalhava na roça, no interior do Paraná.  Nunca mais casou e sequer namorou. Alguns vizinhos se mobilizavam e ajudavam de quando em quando.  Pessoas surgiam pedindo que ele desse esse ou aquele filho, pois a vida era muito dura para sua família, eram muito pobres. Mas, meu avô jamais deu um filho, ela me contou orgulhosa!.  A vida passou, os filhos cresceram, casaram e foram embora.  Ele ficou sozinho e agora tem Alzheimer.  Adivinha quem cuida dele, Regina?  Eu, uma neta!  Os filhos? Cada um tem sua desculpa.

Voltei para casa latejando de pensamentos para lados diversos.  O que é o amor afinal? Dizem que quem ama, cuida!  E quem não cuida, não ama? Ter filhos é ser pai?  É ser mãe? Ser pai é cuidar dos filhos?  Ser filho é cuidar dos pais? Ser velho é dar trabalho?  Quem ama os velhos? O que é viver além de amar?

A única certeza que consegui apreender foi que a vida exige das pessoas atitudes que elas não haviam planejado. Quem vai enfrentar o quê, não há garantias. O que não apreendi, voou. Mas afinal, as certezas são gaiolas, não é mesmo?!

Regina Pundek

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