Regina
Blog Somos Maré

"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Em janeiro de 2000 as borboletas dançavam sobre margaridas e agapantos dos canteiros na parte da frente da escola.

Eu descobri que a antiga moradora dessa casa era uma portuguesa que gostava muito de plantas e flores e, dali para frente procuro respeitar sua memória. Naquela época tínhamos uma escola literalmente sem muros e tudo bem, não tínhamos medo. A gente via os carros das famílias parando na frente da escola e saia para pegar as crianças. De boa. Os alambrados foram mesmo colocados no quintal principalmente para que as ovelhas não sumissem durante a noite.

As plantas do quintal foram sendo pisoteadas e em alguns poucos anos ficou tudo só terra seca. Separamos um espaço para a horta, que na medida dos cuidados das crianças, produz bastante hortaliça e ervinhas. Durante alguns anos, no verão, quando a escola fechava para férias, plantávamos grama em toda a extensão. Ao retornamos em janeiro, fazíamos caminhos, na tentativa de ajudar a grama a pegar bem, antes de liberar para as crianças brincarem por tudo. Chegamos a investir num sistema de irrigação, mas a danada da grama, fosse São Carlos ou Esmeralda, sempre morria rapidinho com as pisadas dos nossos anjos e as nossas próprias também. Consequentemente, o quarto de ferramentas lá embaixo, que costumamos chamar de quartinho do Ederaldo, todos os verões sofria inundações de lama até os joelhos! Um desespero! Mas íamos lidando com tudo isso achando que não havia solução viável.

No final de 2017 o dono do terreno vizinho “decapitou” toda a floresta ao lado da escola. Espaço vivo onde moravam muitos animaizinhos silvestres e vários tipos de árvores. Foi dolorido para todos nós. As crianças ficaram indignadas! E, uma das falas lindas que ouvi foi “não respeitaram nada, mataram até as árvores bebezinhas!”. Em seguida o vizinho levantou um grande muro, separando nossos terrenos. De certa forma eu queria mesmo estar separada dele.
2018 começou e nosso olhar não desejava lembrar do que havia além daqueles muros. De certa forma, começamos a olhar mais para o nosso terreno, que estava tão árido. Então, as crianças do Ensino Fundamental, em seu momento de FAZER, decidiram construir um Clubinho florestal. O que? Um clubinho florestal! Bem, um Clubinho vamos conseguir, vocês precisam nos explicar o que é um clubinho, mas como dar o adjetivo florestal para ele? Temos que fazer uma floresta. Como?

Chamamos um mestre, arquiteto, marceneiro e jardineiro que nos orientou a sobre jardins agroecológicos. Fomos até fazer um curso sobre este assunto. A partir daí, descobrimos que não sabíamos quase nada do tantão que precisamos para dar vida ao solo tão esturricado e duro, conhecer o caminho da água e retê-la no nosso espaço, trazer de volta os insetos, respeitar as plantas que nascem não julgando-as como daninhas ou mato, mas compreender a função de cada uma no sistema todo… e por aí vai. Há muito para aprender junto com as crianças e famílias. Há muito para fazer para que o homem se reconcilie com a natureza e consigamos respeitar o planeta!

Quanto paradigmas para derrubar! Colocar as crianças na lida direta com os problemas tem sido um bom desafio para todos. Trazer as famílias para mutirões e trabalhar a construção da cultura da coletividade é também um desafio que exige persistência. Mas, compreendemos que esse é o grande conteúdo a ser trabalhado na escola. Ecoalfabetização, agroflorestas, sintropia, jardins agroecológicos… natureza. Através da busca pelas soluções dos problemas detectados, seguem as pesquisas, realizações e celebrações. Temos consciência de que ainda temos muito pela frente. As crianças já perceberam que precisamos aprender mais e mais, sobre água, nascentes, captação, retenção, assoreamento, cisternas, PANCs… e, também desejam construir casas de abelhas, casa na árvore, casa de mudas, de ferramentas… e por aí vem muito coisa boa.

A floresta já existe pela perspectiva das crianças e, aos nossos olhos está mesmo ali, fazendo a diferença! Nosso quintal não tem nada de paisagístico, diria mesmo que é um grande canteiro experimental, mas que vem provando a cada dia a sua função. Estamos repletos de flores e insetos… e, o quartinho do Ederaldo não inundou com a chuvarada de verão no final de 2018.

Eu, que sempre gostei de borboletas, por compreender nelas o quanto a vida é um eterno processo, nessa última semana, num momento de deleite com as crianças, de repente me dei conta que as flores COSMOS estavam cobertas de borboletas. Em segundos contei cinco espécies diferentes e ainda abelhinhas jataí. Respirei fundo e me dei conta de uma grande alegria. O borboletário que eu sonhava levantar com telas é um engodo! Temos um borboletário a céu aberto, como todos os animais merecem.

Estamos construindo um microcosmo. Atualmente, a floresta das crianças é o cartão de apresentação da Maré!

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